Quando crescer emocionalmente deixa de ser evitar sofrimento
Crescimento emocional não acontece quando a dor desaparece, mas quando a pessoa amplia sua capacidade de permanecer presente mesmo diante do desconforto. Na clínica, é comum ouvir relatos de pessoas que acreditam estar “regredindo” porque ainda sentem medo, tristeza ou insegurança. Essa leitura, porém, ignora um ponto fundamental do desenvolvimento emocional. Sentir dor não é sinal de fracasso emocional, mas evidência de sensibilidade e vínculo com a própria experiência interna.
Do ponto de vista da Análise do Comportamento, emoções não são obstáculos a serem eliminados, mas eventos privados que fazem parte do repertório humano. Skinner compreende o comportamento como produto da interação entre organismo e ambiente, incluindo sentimentos e pensamentos como componentes dessa interação (SKINNER, 2003). O amadurecimento emocional acontece quando o indivíduo aprende a responder à própria dor de forma menos impulsiva e mais consciente, sem fugir nem se fundir completamente a ela.
Na Terapia de Aceitação e Compromisso, Hayes, Strosahl e Wilson explicam que sofrimento psicológico se intensifica quando a pessoa entra em luta constante para evitar experiências internas inevitáveis (HAYES; STROSAHL; WILSON, 2012). Crescer emocionalmente, portanto, não é deixar de sentir, mas ampliar a flexibilidade para sentir sem se desorganizar.
Permanecer inteiro em meio ao desconforto
Permanecer inteiro não significa suportar tudo em silêncio ou se tornar emocionalmente rígido. Significa desenvolver autorregulação suficiente para atravessar estados emocionais difíceis sem perder contato com valores, limites e escolhas conscientes. Pessoas emocionalmente maduras não são aquelas que não sofrem, mas aquelas que conseguem sofrer sem se destruir nem destruir seus vínculos.
Na perspectiva do apego, Bowlby descreve que a segurança emocional não nasce da ausência de ameaça, mas da experiência repetida de que o vínculo pode suportar tensão, frustração e reparação (BOWLBY, 1982). Isso vale tanto para relações interpessoais quanto para a relação consigo mesmo. Quando o indivíduo aprende que não precisa abandonar a si para aliviar a dor, algo estrutural se reorganiza internamente.
É nesse ponto que o crescimento emocional se torna visível na prática clínica. A pessoa começa a tolerar frustrações sem colapsar, sustenta conversas difíceis sem fugir e reconhece limites sem se envergonhar. Neste momento, é possível aprofundar essa compreensão ao relacionar com o conteúdo do post sobre apego seguro, onde discutimos como vínculos saudáveis são construídos ao longo do tempo, e não encontrados prontos.
A fé como espaço de sustentação, não de negação
Quando integrada de forma madura, a fé não funciona como anestesia emocional, mas como espaço de sustentação simbólica. A espiritualidade saudável não exige que a dor desapareça rapidamente, nem transforma sofrimento em culpa espiritual. Ao contrário, oferece um lugar onde a fragilidade pode existir sem condenação.
A Bíblia apresenta diversas narrativas em que a maturidade espiritual caminha junto com a experiência da dor. O próprio Cristo, ao afirmar “No mundo tereis aflições” (João 16:33, Almeida Revista e Atualizada), não promete ausência de sofrimento, mas presença e sentido no atravessamento. Esse tipo de fé não nega a realidade emocional, mas sustenta o indivíduo enquanto ele aprende a permanecer.
Autores como Henri Nouwen reforçam essa ideia ao afirmar que a maturidade espiritual nasce quando a pessoa aprende a permanecer com suas feridas sem permitir que elas se tornem identidade (NOUWEN, 2006). Esse tema dialoga diretamente com o post sobre fé e saúde emocional, onde exploramos como espiritualidade e psicoterapia podem caminhar juntas sem substituições perigosas.
Crescimento emocional como processo relacional
É importante lembrar que crescimento emocional raramente acontece de forma isolada. Ele se desenvolve no encontro, na relação e na possibilidade de ser visto sem ser reduzido. A Psicoterapia Analítica Funcional enfatiza que mudanças profundas acontecem dentro de relações terapêuticas que favorecem segurança, autenticidade e contingências corretivas (KOHLENBERG; TSAI, 1991).
No espaço terapêutico, o indivíduo pode experimentar, talvez pela primeira vez, a possibilidade de sentir sem ser abandonado, de errar sem ser punido e de expressar vulnerabilidade sem perder dignidade. Esse tipo de experiência relacional reorganiza padrões antigos e amplia a capacidade de permanecer inteiro diante da dor.
Se você já leu o post sobre apego ansioso ou rejeição emocional, percebe como esses padrões costumam gerar fuga, hipervigilância ou autocrítica intensa. O crescimento emocional começa quando esses movimentos automáticos passam a ser observados com mais consciência.
Conclusão
Crescer emocionalmente não é eliminar a dor, mas aprender a permanecer com ela de forma mais integrada, consciente e alinhada aos próprios valores. É deixar de viver em função de evitar sofrimento e começar a viver de forma mais inteira, mesmo quando a experiência emocional é difícil. Esse processo não é rápido, nem linear, mas é profundamente transformador.
Quando esse caminho é percorrido com suporte terapêutico e, para quem faz sentido, com uma espiritualidade madura, o indivíduo passa a se relacionar consigo e com os outros de forma mais segura. Se, ao longo da leitura, você percebeu que muitas das suas lutas emocionais não dizem respeito à fraqueza, mas à falta de sustentação adequada, saiba que isso pode ser cuidado, elaborado e transformado com acompanhamento profissional.
Perguntas Frequentes
Crescer emocionalmente significa deixar de sofrer?
Não. Crescimento emocional significa desenvolver mais recursos para lidar com o sofrimento sem se desorganizar ou se abandonar.
É normal sentir dor mesmo após anos de terapia?
Sim. A terapia não elimina emoções, mas amplia a capacidade de reconhecê-las, regulá-las e responder a elas de forma mais consciente.
A fé pode substituir a psicoterapia?
Não. A fé pode ser um recurso de sustentação emocional, mas não substitui o trabalho clínico necessário para reorganização de padrões comportamentais e relacionais.
Como saber se estou amadurecendo emocionalmente?
Sinais comuns incluem maior tolerância à frustração, mais clareza de limites, menos impulsividade e mais responsabilidade afetiva.
Referências Bibliográficas
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
BOWLBY, John. Attachment and loss: volume I – attachment. 2. ed. New York: Basic Books, 1982.
HAYES, Steven C.; STROSAHL, Kirk D.; WILSON, Kelly G. Acceptance and Commitment Therapy: the process and practice of mindful change. 2. ed. New York: Guilford Press, 2012.
KOHLENBERG, Robert J.; TSAI, Mavis. Functional analytic psychotherapy: creating intense and curative therapeutic relationships. New York: Plenum Press, 1991.
NOUWEN, Henri J. M. O curador ferido. São Paulo: Loyola, 2006.
SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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