Quando a dor parece familiar, ela deixa de ser questionada
Muitas pessoas não escolhem relações que as machucam por falta de informação, mas por familiaridade emocional. O comportamento humano tende a repetir padrões que já foram reforçados no passado, mesmo quando esses padrões produzem sofrimento. Na Análise do Comportamento, isso é compreendido como um processo de aprendizagem: o organismo repete aquilo que, em algum momento, ofereceu previsibilidade ou sensação de pertencimento, ainda que custe caro emocionalmente (SKINNER, 2003; BAUM, 2006).
Na prática clínica, é comum observar pessoas que dizem “eu já sabia que ia dar errado”, mas ainda assim permaneceram. Não se trata de fraqueza, mas de um sistema emocional treinado para reconhecer o conhecido como seguro. Esse movimento é explicado com mais profundidade no artigo Por que repetimos os mesmos padrões emocionais?, que te ajudará a compreender como o passado molda escolhas presentes.
O padrão emocional não é identidade, é comportamento aprendido
Um ponto essencial para a mudança é compreender que padrões afetivos não definem quem a pessoa é, mas como ela aprendeu a se relacionar. A Terapia de Aceitação e Compromisso mostra que, quando o indivíduo se funde às suas histórias internas, passa a agir automaticamente a partir delas, sem espaço para escolha consciente (HAYES; STROSAHL; WILSON, 2012). A maturidade emocional começa quando se cria uma pequena distância entre o que se sente e o que se faz.
Um exercício simples, mas poderoso, é observar o próprio comportamento relacional sem julgamento. Antes de entrar ou permanecer em uma relação, pergunte-se: “O que exatamente estou buscando aqui: conexão ou alívio?” Muitas escolhas afetivas são tentativas de reduzir desconfortos internos, não de construir vínculos saudáveis. Esse tema se conecta diretamente ao conteúdo Apego ansioso: quando amar vira medo de perder, ampliando a sua compreensão sobre suas respostas emocionais.
Como aplicar isso no cotidiano sem fórmulas mágicas
Mudança emocional não acontece por força de vontade isolada, mas por práticas consistentes. Uma orientação clínica baseada em evidências é começar a substituir respostas automáticas por respostas conscientes, ainda que pequenas. Por exemplo, ao perceber o impulso de insistir em alguém emocionalmente indisponível, experimente pausar, nomear a emoção presente e escolher uma ação alinhada aos seus valores, não ao medo (MIKULINCER; SHAVER, 2016).
Na perspectiva cristã, esse processo também envolve sabedoria e discernimento. A Bíblia ensina que “sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração” (Provérbios 4:23). Guardar o coração não é fechar-se, mas aprender a escolher com responsabilidade emocional. A fé, quando integrada de forma madura, não nega a dor, mas oferece base para escolhas mais conscientes e saudáveis.
Ao longo do tempo, essas pequenas decisões constroem um novo repertório emocional. Quando o leitor percebe que não precisa mais se abandonar para ser amado, algo começa a se reorganizar internamente. Se você sente que está nesse ponto de transição, buscar acompanhamento psicológico pode ser um passo cuidadoso e transformador.
Perguntas Frequentes
Por que eu repito padrões mesmo depois de sofrer muito?
Porque padrões emocionais são aprendidos e reforçados ao longo da vida. O sofrimento não é, por si só, suficiente para interromper um comportamento que oferece previsibilidade emocional.
É possível mudar o tipo de pessoa por quem me sinto atraído?
Sim. Quando há ampliação de consciência emocional e desenvolvimento de novos repertórios comportamentais, a atração deixa de ser automática e passa a ser mais alinhada a valores.
Isso significa que o problema está em mim?
Não no sentido de culpa, mas de responsabilidade. Reconhecer o próprio padrão é o primeiro passo para transformá-lo.
Fé e psicologia podem caminhar juntas nesse processo?
Podem, desde que a fé não seja usada para silenciar emoções, mas para sustentar escolhas maduras e responsáveis.
Referências Bibliográficas
BAUM, William M. Compreender o behaviorismo: ciência, comportamento e cultura. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
HAYES, Steven C.; STROSAHL, Kirk D.; WILSON, Kelly G. Acceptance and Commitment Therapy: the process and practice of mindful change. 2. ed. New York: Guilford Press, 2012.
MIKULINCER, Mario; SHAVER, Phillip R. Attachment in adulthood: structure, dynamics, and change. 2. ed. New York: Guilford Press, 2016.
SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

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