Quando o apego deixa de ser escolha e vira sobrevivência emocional
Muitas pessoas chegam à vida adulta acreditando que se apegam demais porque são intensas, carentes ou emocionalmente frágeis. Essa explicação é confortável, mas superficial. Do ponto de vista da psicologia comportamental e da teoria do apego, o apego excessivo raramente nasce do “excesso de amor”. Ele surge, quase sempre, como resposta aprendida a contextos de insegurança emocional, nos quais manter o vínculo era uma questão de sobrevivência relacional (BOWLBY, 1982).
Desde cedo, aprendemos se o mundo emocional é previsível ou instável. Quando o cuidado foi inconsistente, ambíguo ou condicionado, o organismo passa a se organizar para não perder o outro. O apego deixa de ser um movimento livre e se transforma em estratégia. Não é sobre querer demais, é sobre temer perder o pouco que se tem. A análise do comportamento explica esse processo como um padrão moldado por reforçamento intermitente, no qual a imprevisibilidade intensifica a busca por proximidade (SKINNER, 2003).
Com o tempo, esse padrão se automatiza. O adulto já não percebe que está reagindo ao passado, e não ao vínculo presente. Surge então a sensação de que “eu me apego rápido demais” ou “eu me perco nos relacionamentos”. Na prática, o que ocorre é a ativação de um sistema emocional treinado para vigiar, antecipar rejeições e se adaptar excessivamente para manter o vínculo (MIKULINCER; SHAVER, 2016).
Se você sente que o medo de perder organiza suas escolhas afetivas, isso não revela fraqueza de caráter, mas uma história emocional que merece ser compreendida. Esse movimento aparece de forma ainda mais clara no texto Por que eu repito os mesmos padrões emocionais? Uma leitura psicológica do apego, onde explico como esses ciclos se mantêm ao longo da vida.
O que seus vínculos revelam sobre sua história emocional
Os vínculos que construímos dizem menos sobre quem encontramos e mais sobre como aprendemos a nos relacionar. Pessoas com padrões de apego ansioso, por exemplo, tendem a se vincular intensamente, sentir medo constante de abandono e interpretar pequenos afastamentos como ameaças reais ao vínculo (BOWLBY, 1973). Esse padrão não surge por acaso. Ele é fruto de ambientes nos quais o afeto era instável ou imprevisível.
Do ponto de vista da Relational Frame Theory, nossas experiências precoces criam molduras relacionais que passam a organizar o significado que damos ao comportamento do outro (HAYES; BARNES-HOLMES; ROCHE, 2001). Assim, um atraso na resposta, um silêncio ou uma mudança de tom podem ser rapidamente associados à rejeição, mesmo quando não há evidências reais disso. O corpo reage antes da razão, e o vínculo passa a ser vivido em estado de alerta.
É por isso que muitas pessoas dizem: “eu sei que estou exagerando, mas não consigo parar”. O problema não está na falta de consciência, mas na história de aprendizagem emocional. Quando o apego foi a forma encontrada para manter conexão, ele se mantém mesmo quando já não é funcional. Esse mecanismo é aprofundado no texto Apego ansioso não é carência. Entenda por que o medo de perder controla o vínculo, que complementa diretamente esta reflexão.
Do ponto de vista cristão, esse padrão também pode ser observado quando o valor pessoal passa a depender do olhar do outro. A Bíblia alerta que vínculos desorganizados podem nos afastar da verdade sobre quem somos. “Porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6:21). Quando o outro se torna o centro absoluto da segurança emocional, o coração vive inquieto, dividido e exausto.
Quando o apego começa a custar a própria identidade
Um dos sinais mais claros de apego desregulado é a perda progressiva da própria identidade dentro do vínculo. A pessoa começa a ajustar excessivamente comportamentos, opiniões e limites para evitar conflitos ou afastamentos. Esse processo, embora pareça amoroso, é profundamente desgastante. Do ponto de vista funcional, trata-se de um padrão de esquiva experiencial, no qual o indivíduo abre mão de si para evitar a dor do abandono (HAYES; STROSAHL; WILSON, 2012).
Com o tempo, surgem sintomas como ansiedade constante, dificuldade de tomar decisões sozinho, hipervigilância emocional e sensação de vazio quando o outro se afasta. O apego deixa de ser vínculo e se torna prisão. A Functional Analytic Psychotherapy descreve esse processo como uma repetição relacional que ocorre também no contexto terapêutico, permitindo que esses padrões sejam observados e transformados na relação clínica (KOHLENBERG; TSAI, 1991).
Esse custo invisível do apego aparece de forma complementar no texto Quando o medo de perder faz você se perder. Como a ansiedade corrói o vínculo, onde aprofundo as consequências emocionais desse padrão na vida adulta. O apego excessivo não destrói apenas relações, ele fragmenta a percepção de si mesmo.
Na perspectiva bíblica, o amadurecimento emocional envolve aprender a amar sem se anular. O apóstolo Paulo afirma que “o amor não busca os seus próprios interesses” (1Co 13:5), mas isso não significa ausência de limites. Significa amar a partir de um lugar inteiro, e não carente. A maturidade espiritual e emocional caminham juntas quando o vínculo deixa de ser idolatria e se torna escolha consciente.
Conclusão: Apegar-se menos não é amar menos, é amar com maturidade
Aprender a se apegar de forma saudável não significa se tornar frio, distante ou indiferente. Significa construir vínculos a partir da segurança interna, e não da urgência emocional. Quando o apego deixa de ser sobrevivência, ele se transforma em presença. Amar passa a ser um encontro, e não uma tentativa constante de não ser abandonado.
Esse processo, no entanto, raramente acontece sozinho. Ele exige consciência, revisão de padrões aprendidos e, muitas vezes, um espaço seguro onde essas dinâmicas possam ser observadas em tempo real. A psicoterapia oferece exatamente esse lugar: um ambiente estruturado para compreender a função do apego, ressignificar a história emocional e construir novas formas de se relacionar consigo e com o outro.
Se este texto fez sentido para você, talvez não seja coincidência. Pode ser o seu sistema emocional pedindo reorganização, descanso e amadurecimento. Cuidar do apego não é sobre mudar quem você é, mas sobre finalmente poder ser quem você é sem medo de perder o outro.
Perguntas frequentes
Apego excessivo é o mesmo que dependência emocional?
Não necessariamente. O apego excessivo é um padrão aprendido de regulação emocional, enquanto a dependência envolve perda significativa de autonomia. Eles podem coexistir, mas não são sinônimos.
É possível desenvolver um apego mais seguro na vida adulta?
Sim. A literatura mostra que vínculos seguros podem ser construídos ao longo da vida, especialmente por meio de relações consistentes e do processo terapêutico (MIKULINCER; SHAVER, 2016).
Por que eu me apego mais em relacionamentos amorosos do que em amizades?
Relacionamentos amorosos ativam sistemas primários de apego, associados às primeiras figuras cuidadoras, o que intensifica respostas emocionais (BOWLBY, 1982).
A fé pode ajudar no processo de reorganização do apego?
Sim, quando integrada de forma saudável. A fé pode oferecer base de identidade, valor e segurança que não dependem exclusivamente do outro (BÍBLIA, 2011).
Referências bibliográficas
BAUM, William M. Compreender o behaviorismo: ciência, comportamento e cultura. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
BOWLBY, John. Attachment and loss: volume I – attachment. 2. ed. New York: Basic Books, 1982.
BOWLBY, John. Attachment and loss: volume II – separation: anxiety and anger. New York: Basic Books, 1973.
HAYES, Steven C.; BARNES-HOLMES, Dermot; ROCHE, Bryan. Relational Frame Theory: a post-Skinnerian account of human language and cognition. New York: Plenum Press, 2001.
HAYES, Steven C.; STROSAHL, Kirk D.; WILSON, Kelly G. Acceptance and Commitment Therapy: the process and practice of mindful change. 2. ed. New York: Guilford Press, 2012.
KOHLENBERG, Robert J.; TSAI, Mavis. Functional analytic psychotherapy: creating intense and curative therapeutic relationships. New York: Plenum Press, 1991.
MIKULINCER, Mario; SHAVER, Phillip R. Attachment in adulthood: structure, dynamics, and change. 2. ed. New York: Guilford Press, 2016.
SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.


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